RELIGIÃO COMO PALCO DE DISCUSSÕES

Adriana Pereira de Almeida

Resumo


RESUMO

 

A escola atualmente vem trazendo como tarefa o desenvolvimento de conhecimentos diversos, dentre eles o conhecimento no que tange a transcedência, para isso é preciso que reflexões sejam feitas baseadas nas ciências e não nas religiões em si, é necessário que surja ao final do estudo um indivíduo reflexivo/crítico e não um fiel.

A disciplina de Ensino Religioso passou por um processo de muitas discussões no Brasil que culminaram no atual formato pedagógico, formato esse que corrobora para uma formação cidadã e não proselitista, tendo o fenômeno religioso como o estudo possibilitador para o alcance desses objetivos dentro do ambiente escolar.

 

Palavras-chave: Ensino Religioso. PCNER. Transcedente.

 

 

ABSTRACT

The school is currently bringing the task to develop diverse knowledge, including knowledge in regard to transcendence, this requires that reflections are made based on


science and not in religion itself, it is necessary to emerge at the end of a study reflective / critical and not a true individual.

The discipline of Religious Education has undergone a process of much discussion in Brazil that resulted in the current pedagogical format, format that which confirms a citizen training and not proselytizing, and religious phenomena as the enabler study to achieve these goals within the school environment .

 

 

1. INTRODUÇÃO

 

O Ensino Religioso está presente nas escolas brasileiras como uma das áreas do conhecimento do ensino fundamental e possui objetivos específicos, assim como todas as outras disciplinas escolares. É importante que o profissional tenha em mente o que realmente deve ser trabalhado nas aulas de Ensino Religioso para que não haja uma distorção no foco daquilo que deve ser alcançado com o discente.

Esse artigo tem por objetivo refletir sobre algumas questões do Ensino Religioso, abordando o papel dessa disciplina, que por vezes acaba sendo trabalhada de uma forma desnecessariamente errônea nos dias atuais, sendo que existe o amparo legal e a orientação nacional através dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso - PCNER que trazem encorpados cinco eixos organizadores que norteam sobre os conteúdos que devem ser trabalhados nessa disciplina.

 

2. RELIGIÃO COMO PALCO DE DISCUSSÕES

É importante que se saiba qual é o verdadeiro papel do Ensino Religioso nas escolas brasileiras, sendo necessário que esse papel seja desenvolvido à luz da legislação, para que a sociedade conheça sua essência e tenha consciência da sua importância na construção da cidadania, enxergando o Ensino Religioso como uma disciplina que estuda o fenômeno religioso e não como divulgadora de alguma religião específica. Esse conhecimento muitas vezes não é claro para a sociedade e até mesmo para os professores que lecionam a referida disciplina, e uma das razões é a fragilidade do conhecimento desses profissionais, quanto ao que se refere sobre o que ensinar para alcançar os objetivos propostos pelos PCNER, que se resume no estudo do fenômeno religioso em conformidade com a LDB, que anseia o desenvolvimento de uma educação cidadã, pois de acordo com a afirmação de Junqueira (2002):

 

Os professores desta área devem estar plenamente inseridos no contexto das instituições escolares, sem que haja discriminação nem privilégios de qualquer natureza. Mas é preciso reconhecer que ao longo da história do ensino religioso, sempre houve a preocupação com a formação dos professores. Porém esta nem sempre foi algo tranquilo, em conseqüência da dificuldade da identidade da disciplina.

Portanto, um dos objetivos da escola brasileira é trabalhar a cidadania, esse trabalho prepara os indivíduos para a priorização do bem comum e respeito a diversidade, prepara também para uma  atuação com ética na sociedade, solidariedade e participação ativa no meio social com capacidade de criticar, criar e refletir, sendo necessário para isso,  uma educação com liberdade de pensamento, que possibilite a construção de novos conceitos. Sobre educação cidadã Filho (1998) afirma que:

 

[...] sem consciência política nada seria possível. Essa tarefa cabe à educação. Torna-se urgente educar para a cidadania, para ser possível vislumbrar o bem comum e o exercício da participação. Cabe à educação o descortinar horizontes, tendo em vista o bem comum, processo de longe duração, mas possível.

 

 

Os assuntos que se referem à religiosidade e à ética são componentes indispensáveis na formação do cidadão, por esse motivo de acordo com Junqueira (2002) o Ensino Religioso deve ser trabalhado em sala de aula com cunho pedagógico fundamentado no fenômeno religioso a partir do convívio social do educando, livre de proselitismo, “através de uma metodologia que promova a observação da manifestação religiosa em estudo, a busca da sua compreensão e a reflexão da sua expressão” um Ensino Religioso que possibilite ao aluno uma amplitude de conhecimentos sobre todas as religiões possíveis, durante o período escolar, trabalhando essa disciplina não baseado no que a religião diz de si mesma, para que ela não seja objeto de estudo religioso. Aprender a ver o mundo numa perspectiva laica é o que a escola precisa ensinar e as questões religiosas de crenças individuais devem ficar a critério da família, conforme Sena (2007):

Trata-se de reconhecer, sim, a religiosidade e a religião como dados antropológicos e socioculturais que devem ser abordados no conjunto das demais disciplinas escolares por razões cognitivas e pedagógicas. O conhecimento da religião faz parte da educação geral e contribui com a formação completa do cidadão, devendo, no caso, estar sob a responsabilidade dos sistemas de ensino e submetido às mesmas exigências das demais áreas de conhecimento que compõem os currículos escolares.

 

 

 

O Ensino Religioso perpassa por questões que estão além de uma doutrina; ele mexe com o afeto religioso, porém, a religião vai tratar de questões que lhe compete e o Ensino Religioso da mesma forma. Ao lecionar essa disciplina o professor deve ter em mente que respeitar as religiões é focar na cultura e na história das religiões e não fomentar uma indução distorcida das mesmas pois, conforme Junqueira (2002):

 

Com o Ensino Religioso visa-se, então, valorizar o pluralismo e a diversidade cultural presente na sociedade brasileira, facilitando a compreensão das formas que exprimem o "Transcendente" na superação da finitude humana, que determinam o processo histórico da humanidade.

 

 

Portanto, com o intuito de direcionar o professor sobre o que ensinar no Ensino Religioso, os PCNER trazem cinco eixos organizadores com seus respectivos conteúdos a serem trabalhados nessa disciplina:

Culturas e Tradições Religiosas: É o estudo do fenômeno religioso dentro da compreensão humana, na qual analisa assuntos como: a relação entre ética e tradição religiosa, valores e função da tradição religiosa, tradição religiosa revelada e natural, teodicéia, existência do ser humano e seu destino nas diferentes culturas.

Para realizar esse estudo, agregam-se conhecimentos de outras áreas relacionadas ao fenômeno religioso, que fundamentam o âmbito da compreensão através da ligação com as ciências que tratam do mesmo objeto como: Psicologia e Tradição Religiosa (que trata das ordenações da tradição religiosa na estrutura mental do inconsciente individual e coletivo); Filosofia da Tradição Religiosa (que trata da concepção do Transcedente no ponto de vista tradicional e atual); História e Tradição Religiosa (que trata da modificação da estrutura religiosa nos grupos humanos com o passar do tempo) e a Sociologia e Tradição Religiosa (que trata da função política dos ideais religiosos).

Teologias: É conjunto de saberes e afirmações idealizadas pela religião e transmitidas para os fiéis a respeito do Transcedente, de forma estruturada e sistematizada.

Esse estudo é explanado na verdade de fé, pois, o Transcedente é o ser ordenador e senhor absoluto sobre todas as coisas. A participação na essência do Transcedente é compreendida como dádiva e glorificação, relativamente no tempo e na infinidade.

Os conteúdos para estudo das teologias são organizados a partir de: Verdades de Fé (que trata do grupo de crenças, mitos e doutrinas que dão orientação a vida do fiel nas diferentes tradições religiosas); Divindades (sobre a descrição das formas de como o Transcedente é apresentado nas tradições religiosas) e Vida Além da Morte (que trata do sentido da vida nas suas possíveis respostas através da ideia de reencarnação, ressurreição e ancestralidade).

Textos Sagrados e/ou Tradições Orais: São textos que emitem uma mensagem do Transcedente de acordo com a fé dos fiéis. As origens às tradições vão surgindo pelas revelações, nas quais por elas o Transcedente mostra aos indivíduos sua vontade e seus mistérios, na qual fazem parte do ensino, dos estudos eruditos, da pregação e da exortação.

Em busca de um direcionamento para a vida concreta no mundo, os textos contém a construção da vontade e dos mistérios manifestos do Transcedente. Essa construção ocorre gradativamente em consonância com o tempo-história e cultura, como resultado do percurso religioso de um grupo social levando em consideração as experiências religiosas dos seus ancestrais.

Os conteúdos para estudo são estipulados a partir de: Contexto Cultural (a apresentação do cenário sócio-político-religioso relevante na redação final dos textos que são considerados sagrados); História das Narrativas Sagradas (a percepção dos fatos religiosos que ocorreram e originaram os segredos sagrados, assim como os mitos e a construção dos textos); Exegese (os textos sagrados a partir de sua análise e hermenêutica atualizadas) e Revelação (a transmissão de uma verdade do Transcedente para os indivíduos, fazendo uso de uma autoridade da linguagem religiosa, com base na experiência mística de quem transmite).

Ritos: É o conjunto de práticas expressadas nas religiões formando um agrupamento de rituais, símbolos e espiritualidades.

Esse mesmo agrupamento contém os conteúdos a serem estudados: Rituais (a apresentação das práticas religiosas significativas, construídas pelas diversas religiões); Símbolos (a percepção dos símbolos religiosos mais importantes a partir de cada religião relacionando com seu significado); Espiritualidades (o estudo dos procedimentos utilizados pelas diferentes religiões na relação com o Transcedente, com os outros, com o mundo e consigo mesmo).

Ethos: De acordo com FONAPER (2001) é a “forma interior da moral humana em que se realiza o próprio sentido do ser”.  Tem a sua formação na compreensão interior sobre os valores. A expressão da consciência surge como dever e como resposta de si mesmo. A intimidade do ser humano através de um processo dinâmico está ligada com o valor moral, na qual para alcança-lo é necessário mais que as superfícies das ações individuais, há, portanto uma influência da ética, que é carregada de muitas funções, destacando-se a utópica e a crítica, na qual essa dupla função indica a procura de significados e de fins que envolvem a moral. Na função utópica há uma projeção e configuração do ideal normativo das práticas dos indivíduos. Na função crítica, por meio do discurso ético, identifica, desmascara e analisa as ações inautênticas da realidade das pessoas.

A formação de um sujeito ético faz parte da função da escola, pois, de acordo com Ferreira, o conhecimento que constrói o respeito ao outro, em especial referentes às suas escolhas pessoais, necessita de internalização de regras, e assim a escola é um referencial na formação desse pensamento consciente, conforme afirmação de Ferreira (2001):

 

O papel da escola, nesse processo de interiorização de norma, é o de proporcionar ao educando uma reflexão sobre o agir justo no mundo, em consonância com o outro, num projeto coletivo de exercício do respeito e da solidariedade. Para que isso ocorra, é necessário que as normas sejam objetivas e que possibilitem ao sujeito fazer escolhas.

 

 

Os conteúdos que devem ser estudados nesse eixo são a partir de: Alteridade (a condução da relação com o outro através de valores); Valores (a identificação das diversas normas de cada religião, que é exposto para os fiéis no âmbito da respectiva cultura); Limites (os fundamentos dos limites éticos apresentados pelas diversas religiões).

Esses cinco eixos organizadores orientam e colaboram para a não propagação do proselitismo, cabendo ao docente explorar esses eixos organizadores de forma neutra, para que o aluno realmente compreenda sobre as diversas religiões através de um olhar investigativo, e não de crença, pois esse conhecimento religioso também contribui e muito para a formação integral do cidadão.

Os eixos organizadores possibilitam que os conteúdos de Ensino Religioso sejam trabalhados desenvolvendo o respeito à diversidade. Os temas de cultura e diferentes tradições religiosas, assim como a percepção e a análise dos diversos conceitos de Transcedência integrados nas religiões, colaboram para a compreensão do formato e os motivos que levam a acontecer às variadas práticas ritualísticas, facilitando então, o entendimento do sentido dos textos religiosos em seus diferentes tempos e espaços. Os eixos organizadores também contribuem para uma comparação do comportamento das diferentes sociedades baseado nas suas tradições religiosas.

É nítido que o proselitismo é descartado nos conteúdos do Ensino Religioso, mas oportuniza o conhecimento dos componentes básicos que estruturam constituem o fenômeno religioso. Infere-se que, os conteúdos do Ensino Religioso devam ser realizados em forma de conhecimento e análise, em meio à pluralidade cultural no ambiente escolar, mantendo para o educando o direito a liberdade de expressão religiosa.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

 

O Ensino Religioso é uma disciplina de grande importância para a formação da cidadania, possuindo um direcionamento próprio que podem ser vistos nos PCNER através de seus objetivos específicos e seus cinco eixos norteadores, nas quais cada um aponta os conteúdos que devem ser trabalhados nessa disciplina. É, portanto inadmissível vermos o Ensino Religioso ser trabalhado fora daquilo que é proposto pelo sistema público, se as discussões levaram o Ensino Religioso a chegar no patamar de organização que chegou não há explicações para um Ensino Religioso ministrado de forma proselitista ou sem um direcionamento pedagógico, o que significaria abrir mão de conhecimentos essenciais para a formação cidadã.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

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SENA, Luzia (org.). Ensino Religioso e formação docente: ciências da religião e ensino religioso em diálogo. 2ª ed. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 32.

 

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FÓRUM NACIONAL PERMANENTE DO ENSINO RELIGIOSO — FONAPER. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Religioso. 5. ed. São Paulo: Ave Maria, 2001.

 

JUNQUEIRA, Sérgio Azevedo. O processo de escolarização do Ensino Religioso no Brasil. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

 

JUNQUEIRA, S.R.A.; MENEGHETTI, R. G. K.; WACHOWICZ, L. A. O Ensino Religioso e sua relação Pedagógica. Petrópolis, RJ, Vozes, 2002, p.11-12.

 

BRASIL. Lei n. 9.394/96, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Poder Legislativo, Brasília, DF, 23 dez. 1996. p. 27833. Disponível em: http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaTextoIntegral.action?id=75723. Acesso em 11 ago. 2015.

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